A Mídia, a Violência e a Responsabilidade Social - por Rogério Araújo - Rofa

14/04/2016 10:12

Artigo acadêmico (Curso: Propaganda e Marketing – Disciplina: Responsabilidade Social –

2o período/2003 – Estácio de Sá, RJ)

 

                                                                                                   

            “A televisão brasileira já está em condições de dosar melhor as suas mensagens sociais equilibrando o entretenimento saudável com a função educativa que figura também, e principalmente, entre os seus atributos(...)”. O trecho é do editorial publicado em dezembro de 1971, no “Jornal do Brasil” com o título “Qualidade na TV”, do ex-ministro das Comunicações, Higino Corsetti. Mais de 30 anos se passaram, a tecnologia aumentou assustadoramente, mas a declaração feita não corresponde, ainda, a totalidade das ações sociais/educativas por parte das emissoras de TV.  

            A televisão fala e passa, por exemplo, tanta violência que cria uma imagem de que ela é até “normal” e o único fator para tentar neutralizá-la é a família, depois a escola, a Igreja e outras organizações que estão antenadas e vigilantes. E as crianças são as mais afetadas neste sentido. Elas absorvem tanto o que a TV diz que, segundo uma pesquisa realizada, 44% não conseguem diferenciar a realidade do que vêem na telinha. É uma situação caótica! O que colabora ou prejudica de vez é o ambiente violento em que ela vive. Se isso acontecer, vai piorar ainda mais as coisas. Porque a família precisa ensinar a criança a “filtrar” o que vê, retendo o que é bom e desprezando o que não presta.

            Onde está o grau de responsabilidade social da mídia? O conteúdo é que pode ser ruim ou bom, pois a televisão, uma das principais mídias no Brasil e no mundo, como veículo é neutro. Há muita coisa boa também, como os programas educativos e os jornalísticos, sem apelação; e como há coisas ruins que usam e abusam de certos artifícios e da própria violência para conseguir IBOPE e a audiência. E esta violência não é só a visível, mas a invisível, sutil, também serve como arma para aniquilar a ética, moral e cultura de uma sociedade.

            No Brasil então, que é líder em telenovelas, as coisas são ainda piores. Como as pessoas são atraídas pela moda das novelas e o que é pior, pelas suas práticas. O “errado” em uma novela pode ser transmitido como algo “normal” e assimilado assim pela massa que a assiste. Porém, novela pode (e até deve) ser sinônimo de responsabilidade social.

            Um exemplo atual disso é novela “Mulheres Apaixonadas” que abriu um leque de oportunidades na área social, abordando diversos temas do cotidiano e polêmicos, como: doação de órgãos, câncer de mama, descaso com os idosos, adoção de crianças, homossexualismo feminino, violência urbana, dentre outros. A simples inserção desses assuntos, ainda que em um curto espaço de tempo, resultou no aumento de número de doação de órgãos; procura do exame preventivo do câncer de colo uterino e de mama, ainda que somente o último foi mencionado na novela; maior procura de crianças para adoção; um alerta sobre o preconceito homossexual; uma mobilização sobre o terror da violência em nosso estado do Rio de Janeiro e no país como um todo. Tudo isso devido a consciência do autor da novela, Manuel Carlos que, como sempre faz em suas novelas, levou a reflexão de seu público sobre estes assuntos tão ricos para a dramaturgia e necessários para a nossa sociedade.    

            Para a economista especializada em sociologia e professora universitária, Maria das Dores Silva, a causa da exposição maciça da violência nas várias mídias é resultado da concorrência, a busca de um diferencial em seus produtos veiculados. De acordo com ela, a violência não acontece por acaso; há um motivo para acontecer e a mídia acaba por dar grandes coberturas, muitas vezes de forma chocante sem se preocupar com as conseqüências desta informação. “Hoje nós ligamos a televisão e podemos ver formas requintadas de matar, seqüestrar, torturar ou gerar atritos como nas telenovelas que exploram os conflitos nos relacionamentos.”, exemplifica a professora. “Nossos direitos estão sendo feridos, já que não pedimos aquela violência exposta. A mídia não nos protege contra esta violência”, analisa ainda, a economista.

            Outro problema desta exposição é em relação à ausência de ética. “Quando se fala em ética e age através dela, não podemos separá-la das conseqüências, pois estão intimamente ligadas”, afirma ainda a socióloga, Maria das Dores. A responsabilidade social na mídia é grande, uma vez que não se pensa no impacto e no reflexo destas informações publicadas de forma banalizada. Seja na televisão, no rádio, na revista ou na internet, a situação é a mesma: falta ética, moral e respeito. E tudo porque não se objetiva o público pelo próprio público, mas por seus resultados “positivos”, em termos de audiência e lucros comerciais. Daí a entrada na mídia desta “novidade” chamada responsabilidade social que acaba por atrair ainda mais a procura por esta ou aquela emissora, editora ou página da web, já que é mais bem vista no mercado, passando-se de boca em boca este diferencial da empresa e sua relação com a área social da sociedade onde está inserida.

            “Na web qualquer um pode dizer o que lhe der na telha, eis aí uma democratização irresponsável”, disse o professor emérito da Universidade de Paris, Claude-Jean Bertrand. Ele acrescentou que “Alguns jornalistas não têm senso do certo e do errado, acham que se vender está tudo bem. Praticam o jornalismo sem a mínima idéia de sua função social, inspirados pela mesma consciência ética com que venderiam um vaso de planta ou um cinto de couro”.

            Apesar de se acharem o suficientemente ético para os princípios que lhe regem, a grande imprensa, em troca de maior audiência, os desconsidera e comprovam pela sua atitude que o seu compromisso é mesmo o econômico e que usa a comunicação de massa abusivamente para este fim, sem escrúpulos. “Há que se exigir da mídia, responsabilidade sobre o que veicula e sobre os efeitos que provoca, a fim de resgatar seu comprometimento com o interesse comum e desestimular, o descaso para com a causa pública(...)”, afirmou o professor universitário, Paulo Renato S. Ferrony, em seu artigo “Liberdade de Imprensa e sua Responsabilidade Social”. 

            E os “enlatados” o que dizer? Os filmes são a “sensação” da juventude, crianças e as pessoas em geral. Numa outra pesquisa realizada, 88% das crianças elegeram a figura de Arnold Schwarznegger, no filme “O Exterminador do Futuro” como seu herói. E por isso praticar o que ele fez no filme é o “máximo”. E, aliás, ele mesmo tanto assimilou esta idéia que “virou” político e candidato a governador da Califórnia, EUA, para ser o “salvador da pátria, o herói” de um estado malgovernado e com sérios problemas como aquele. Quem sabe foi por isso que as crianças nos Estados Unidos atiraram nos colegas e professores, há tempos atrás, achando que eram “heróis”, naquele momento?!

            É preciso, sem dúvidas, diálogo no lar, senão a criança ou o adolescente vai procurar o que quer saber na televisão ou com colegas que não prestam. É conversando que todos se entendem, inclusive neste aspecto de controle do que é visto na mídia. Existem coisas que são tão inúteis que entram por um ouvido e saem por outro, mas outras perigosas que entram e se fixam na mente. Eis o X da questão para uma programação voltada para que esta fixação seja feita de modo que se concentre no que é útil, importante, prioritário e não o inverso disto.     

            Como disse o psicólogo Jo Groebel numa entrevista: “Não sou um missionário e não estou dizendo que deve ser feita uma limpeza. O problema é que a violência dá lucro e é barata. É mais barato do que pôr na tela uma sofisticada história de amor”. E é verdade mesmo: onde estão as “histórias românticas” de antes? O mundo mudou e a tecnologia transformou tudo e nem sempre para melhor. Como diriam os mais antigos “já não se fazem as coisas como antigamente”. E em matéria de TV é a pura verdade, já que melhorou assustadoramente, mas degradou e desagradou muito a milhares de pessoas, com seu enfoque atual voltado para a banalização do ser humano.

            A televisão é um veículo de comunicação e não uma forma ditadora de se fazer uma “lavagem cerebral” no homem. É importante que ela busque direcionar-se para alvos educativos e não para a degradação total. E aí que entra a responsabilidade social na televisão e na mídia, em geral, fazendo com que o interesse da sociedade fique à frente dos interesses individuais e dos ricos empresários, o que é difícil, mas não impossível.

            Algumas emissoras de TV, como a Rede Globo e o SBT, promovem eventos para angariar fundos para a UNICEF e AACD, respectivamente. A primeira realiza um show anual, o “Criança Esperança”; e a segunda o “Teletoom”. Ambas ganham a “simpatia” do público em geral, garantindo uma boa imagem institucional na sociedade e a adesão de grandes empresas que doam altos valores para colaborar com esta causa tão “nobre”. São válidas estas ações, porém representam uma gota no oceano num país onde a necessidade é muito maior e os governos entram e saem sem atingirem a todos. Empresários, políticos e o judiciário é que são tratados com uma “responsabilidade social (e pessoal)” impressionante.

            Existe uma campanha da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e organizações da sociedade civil para a promoção dos direitos humanos e da igualdade do cidadão na mídia que tem o seguinte slogan: “Quem financia a Baixaria é Contra a Cidadania”. O que vale e muito para toda a mídia, não importa qual seja.

            Não adianta, vive-se numa época onde “A propaganda é alma do negócio... e o negócio é alma da propaganda” (Nizan Guanaes). Por isso, uma vez acontecendo a conscientização total por parte da mídia, de seu papel fundamental no levantamento dos problemas da sociedade e de seu apoio na resolução dos problemas, maiores serão as chances de chegar-se a uma melhora significativa nos valores éticos, morais e sociais de nosso país.

            Responsabilidade social não é somente falar sobre saúde, educação, segurança, mas é agir e ter respeito pelo seu próximo, amenizando suas dores e sofrimentos, conscientizando-o do melhor caminho a seguir, apoiando-o em suas carências. Enfim, mostrando-o através da mídia, da importância de cada um na sociedade. Ninguém vive sozinho. E o descaso de hoje pode ser a desgraça de amanhã.

            A mídia é a única solução para uma “responsabilidade social globalizada”, onde todos tenham acesso a este conhecimento e que possam exercer a sua parte neste papel que não depende de pessoas, um grupo ou outro, mas de uma cultura global de respeito pelo bom entendimento de que o “social” é tudo, tanto pessoal quanto corporativamente. Como diz um ditado popular: “Quem não vive para servir, não serve para viver”. É responsabilidade social já, para um Brasil com um futuro melhor econômica, moral e socialmente!      

                                                                                                        

           

 

BIBLIOGRAFIA

 

BOLONI, Leonardo. Concorrência atropela ética: falta de critérios compromete qualidade da informação.      Disponível    em:    

midia2.html> Acesso em: 27 ago. 2003. 

 

OLIVEIRA, Zacharias Bezerra de. A Responsabilidade Social na Mídia, Brasília, 12 nov.  2002.   Disponível   em:

=4331>. Acesso em: 27 ago. 2003.

 

“QUEM financia a Baixaria é Contra a Cidadania”: Campanha da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados. Ética na TV Online. Disponível em: . Acesso em: 27 ago. 2003.

 

FERRONY, Paulo Renato S. A Liberdade de Imprensa e Sua Responsabilidade Social. Acesso em: 27 ago. 2003.

 

ABRAMO, Bia. A TV precisa melhorar desde sempre, Folha SP Online, São Paulo, 17 ago. 2003. Recebido por e-mail em: 17 ago. 2003.

 

GROEBEL, Jô. A violência na sala de estar, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 31 mai. 1998.

 

FERREIRA, Carlos Alberto; RESENDE, Érica dos Santos; PATACO, Vera Lúcia Paracampos. Manual para elaboração de trabalhos acadêmicos, dissertações e teses. 2. ed. Rio de Janeiro: Universidade Estácio de Sá, Gerência Geral de Bibliotecas, 2002.

 

 

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