Friedrich Nietzsche (1844-1900), Fiodor Dostoiévski (1821-1881) e Gilles Deleuze (1925-1995); Um breve mergulho nas reflexões de três periogosos pensadores.

Friedrich Nietzsche (1844-1900), Fiodor Dostoiévski (1821-1881) e Gilles Deleuze (1925-1995): Um breve mergulho nas reflexões de três perigosos pensadores.                                                                                                                          

                                                                                                           Por Giuliano de Méroe



O estudo se propõe a discutir, conceitos de “bom” e “ruim”, ou “nobre” e “vil” do pensamento de Nietzche; na interpretação de Gilles Deleuze, nos desdobramentos da literatura de Dostoievksy e reflexões em sala de aula do Professor Peter Pál Pelbart. O texto se detém nas obras Genealogia da Moral, de Nietzsche; no livro Gilles Deleuze: Nietzche e a Filosofia; no romance Recordações da Casa dos Mortos de Dostoievski, e na tese de doutorado do Professor Pelbart, O Tempo Não Reconciliado.


Nietzsche com sua corrosiva e agressividade de pensamento refletiu em suas obras sobre a filosofia, atingindo instâncias de pensamento muito diferentes da História da Filosofia e do papel dos filósofos. Com a afirmação do seu pensamento, cria conceitos de bom e ruim (nobre e vil), segundo a perspectiva de uma genealogia da moral e das forças que se apoderam (ativas e/ou reativas) de determinada circunstância ou tempo.

O pensador alemão com sua causticidade, nos liberta das formas de pensamento em que os filósofos se perdiam e divisavam entre si; como verdadeiro e falso; certo ou errado; e também de um ideal de outro mundo, segundo a metafísica.

Na primeira tese de Genealogia da moral, Nietzche expõe o conflito entre dois tipos de moral: a do nobre e do escravo. A moral do nobre, segundo o pensador, não faz dicotomia entre “bom” e “mau”, mas entre “bom e “ruim”“. Mau e ruim, à primeira vista, podem parecer uma antinomia linguística idêntica em relação a bom, mas para Nietzche, a diferença está nos planos de pensamento de cada uma.

“Ruim” faz alusão a um pensamento pobre, vil, reativo, contrário ao traz potência a vida. O “mau”, pertencente a moral mundana, quer dizer contrário a nossos valores, costumes. Notamos que “ruim” e “mau” não rimam de acordo com reflexão nietzcheana. Da mesma forma, “bom”, para a moral nobre, não significa aquilo que se soma aos nossos valores, ideias e tampouco o verdadeiro; traz o sentido de pensamento alto, elevado, criador.

 “Perguntemo-nos[1], quem é propriamente “mau”, no sentido da moral do ressentimento. A resposta, com todo o rigor: precisamente, o bom da outra moral, o nobre, o poderoso, o dominador, apenas pintado de outra cor, interpretado e visto de outro modo pelo olho do ressentimento”.

O nobre vê o inimigo, seu verdadeiro antípoda, como uma distinção. E dependendo da circunstância talvez o admire e de propósito queira eliminar qualquer oposição e contradição, para afirmar com ainda mais vigor e tenacidade à qualidade de sua diferença nessa inevitável relação de forças entre ambos. Tal reverência ao inimigo, já uma ponte para o amor...[2]

Permito-me uma digressão à literatura do romancista russo Dostoiévski, aproximando-a ao que Nietzsche deixou subentendido em sua filosofia, sobre o ponto de vista do nobre em relação ao seu inimigo.

Dostoiévski, no livro “Recordações da Casa dos Mortos” (1861), expressa de modo romanceado, a qualidade do pensamento de Nietzche sobre o que é o Nobre, através do personagem Alexander Petrovitch Goriantchikov, pelo qual o romancista revive sua experiência numa prisão da Sibéria por motivos políticos, embora uma afinidade com o autor permita dizer que suas motivações contra o governo não eram políticas e sim, no nível da Ética.

Na carta ao irmão Mikhail, escrita logo após sua saída na prisão, o autor conta sua experiências e descobertas. “Mesmo na cadeia, entre os bandidos, eu acabei por descobrir os homens ao longo desses quatro anos. Acredite: existem naturezas profundas, fortes, maravilhosas, e como é bom descobrir ouro sob uma casca rude” [3].

O pensador russo, de origem aristocrata, sofreu, com o preconceito dos prisioneiros, exatamente por ser da nobreza. Recaiu sobre ele o peso da moral escrava, do modo de pensar do homem mesquinho e ressentido. Era discriminado toda vez que fosse executar alguma tarefa braçal ou algum trabalho. Assim mesmo, ele se interessava pelo antípoda, e silenciosamente estudava o criminoso; em alguns deles, podia perceber uma delicadeza na alma, como a de verdadeiro nobre (no sentido nietzcheano); revés disso também percebia em companheiros nobres (classe aristocrática), uma alma violenta, grosseira, desejosa de triunfo, interessada, sobretudo em mostrar que está por cima...

Voltando a Nietzsche, a primeira parte do seu livro Genealogia da Moral já contém uma singularidade de pensamento que transmuda a forma de pensar a filosofia.

O pensador alemão ressalta que a urgência da Filosofia de aprender a pensar, não comprometida com os valores do Estado, recuperar seu poder corrosivo, bem como, denunciar e saber diagnosticar onde se irrompe o pensamento baixo, vil, ainda que dotado de verdades fatuais. “(...) a partir daí, não se trata mais de estabelecer o verdadeiro e o falso, porém o nobre e o vil, o alto e o baixo, segundo a natureza das forças que se apropriam do pensamento. Assim, a tolice não é um erro, pois mesmo o mais tolo pode estar repleto de verdades, mas essas verdades são baixas, são as de uma alma baixa, pesada e de chumbo”.[4]

Portanto, na primeira dissertação de Genealogia da Moral, Nietzsche entende como “nobre e bom” aquilo que aumenta o sentimento de poder no homem, o poder do próprio homem. O Poder nesta reflexão, não tem haver com desejar o poder. Não é o poder como controle, domínio sobre o outro, ou desejo de reconhecimento. Falamos do poder, como o elemento genético e diferencial da força que quer criar, e nesta criação pensar o que não foi pensado e inventar por si mesmo valores novos. Poder como vontade de potência...[5]é a esteira de pensamento de Nietzsche, o oposto do poder visto de baixo, pelos olhos da moral escrava que não inventa, nem quer cria nada de novo, somente deseja galgar no topo de valores já vigentes e bem quistos.

Os conceitos de nobre e vil ou alto e baixo estão atrelados aos tipos de forças que os preenchem. No pensamento alto, estão as forças ativas, as de criação, essas forças não reagem, nem desejam o já é canonizado, seja em termos de valores, status quo ou conhecimento. O pensamento baixo é atravessado por forças reativas, aquelas forças que somente reagem; ao se entrançarem no sujeito, elas o obrigam a este interpretar e olhar as coisas sempre de través.

Vamos nos deter nos conceitos de forças. O que é uma força? Uma força já é necessariamente uma relação da força com a força. Uma relação de tensão de umas com as outras. Toda força está em relação com outras, quer para obedecer ou para comandar. As forças dominantes são chamadas de ativas, as forças dominadas de reativas. Ativo e reativo designam qualidades da relação da força com a força.

Convém lembrar, conforme Deleuze, que as forças não renunciam ao seu próprio poder. Assim as forças reativas, embora sejam as que obedeçam, não perdem sua quantidade de força e continuam do mesmo modo, exercendo funções de assegurar as condições e conservação de vida. Elas obedecem, porém, cabe ressaltar: não podem ser negadas! Elas não são rejeitadas pelas forças ativas, caso contrário, não existiria vida. Elas têm sua eficácia e pertinência; o funcionamento de um corpo, a nutrição ou qualquer mecanismo biológico, é essencialmente reativo, mesmo a consciência.

O que interessa para Nietzsche em relação às forças, na leitura deleuziana, é a descoberta das forças ativas, sem as quais as próprias reações não se derivam como forças. A filosofia de Nietzsche é totalmente no âmbito das forças de criação. No entender de Deleuze, a escrita desse pensador é intensiva; ligada com as forças do “Fora”[6].

Deleuze explica que até a escrita de Nietzsche é intensiva porque sua filosofia não está interessada em explicar ou multiplicar as perspectivas da representação ou significado que nosso intelecto dá as coisas. Sua escrita não trabalha para inventariar valores morais, religiosos ou reconhecidos pelo Estado. É muito diferente dos filósofos que criticava como Kant, Descarte e Hegel; Nietzsche opera diretamente com as forças que nos perturbam porque arrastam nossa consciência.

 A filosofia e por desdobramento a escrita, tanto de Deleuze como de Nitezsche não se movimentam no mundo dos significados ou significantes, tal como operam as outras filosofias sempre afiadas em atribuir significado aos fenômenos. A relação de Deleuze e Nietzsche com a filosofia é inteiramente outra. Procura desbravar e traçar sentidos (não significado) para a vida; Uma filosofia que traça sentidos precisa se situar na esteira daquilo que está fora de nosso intelecto, o sentido surge de um embate entre corpos, das forças e singularidades destes encontros. A busca por significado é paralisia desse processo.

Uma escrita intensiva traça sentidos porque faz mover o pensamento se mover como um processo criativo, nesta escrita procura se criar conceitos originados das forças. Diferente de uma criação aleatória de palavras, que apenas multiplicam os significados existentes e sem diálogo com as forças.

A consciência na compreensão desses pensadores é reativa, porque tende apenas representar as coisas no nível da identidade. Ela não é considerada a primeira instância para eles. O pensamento é maior, advém de forças outras e embates, e a consciência somente pode testemunhar esse jogo de forças que talvez vise a uma formação de um corpo maior.

Agora vamos entrar discutir sobre o novo tipo de filósofo que a filosofia de Nietzsche e Deleuze clamam em urgência:

Segundo Pelbart[7], para Deleuze a problemática está na forma de conceber o pensamento, pois mesmo filosofias de famílias muito diferentes, comungavam com a mesma ideia de imagem do pensamento. Os filósofos, em sua ânsia pela busca do verdadeiro e do método certo para conduzi-los a um caminho seguro da verdade, desconsideravam as forças reais que fazem o pensamento enquanto pensamento que é.

Deleuze, assim como Nietzsche já dizia, nos conduz a uma filosofia que rompe com esses paradigmas da arte de pensar. O filósofo que bem compreende as noções de forças em Nietzsche, agora em vez de por o acento na verdade e no método, acentua nas forças que fazem pensar aquilo que nós pensamos. As forças que nos fazem pensar de tal ou qual modo. O pensamento nessa esteira, não pode ser mais medido pela verdade que o método atinge. Ele é considerado pelas forças que o engendra. A ênfase desvia-se, de Método – Verdade; para Pensamentos – Forças.

Dizemos também que por causa da certeza de que um método bem definido é suficiente para pensar direito e rumo à verdade; passamos a esconjurar todas as forças que nos causam perturbação. Isso é problemático porque as forças são a gênese, e desconsiderando-as, os esforços pela busca da verdade se apoiando em um método, camuflam a própria historicidade daquela verdade que se quer chegar.

Esconde o fato de que certas verdades em nossa história foram produzidas por certos tipos de forças. São uma relação de forças que engendram o poder em sociedade, e esse poder estabelecido dita somente verdades que a ele sustentam.

A famosa frase de Leibniz “Devemos produzir verdades novas sem perturbar os sentimentos estabelecidos” que tanto influencia a historia da filosofia e a maneira de pensar dos filósofos irrita tanto a Nietzsche quanto a Deleuze. Pois quando a Filosofia quando perde seu poder corrosivo e de perturbação, não serve para nada, vira um instrumento a serviço do Estado, sua sedução intelectual cai nas graças do status quo e, desse modo se reduz inventariar valores.

O filósofo precisa considerar as forças operando em tal ou qual situação, e em qualquer caso, avaliar as forças que se apoderam de um determinado modo de pensar, de criar conceitos e mesmo de escrever e falar. Essa a arte do genealogista. O genealogista considera o tipo, quantidade e qualidade de forças em uma situação. Considera-as como instância primeira, em relação ao sujeito que nela se circunscreve.

Em seu trabalho, ao se ocupar da escrita, estará despojado do plano da representação, ou seja, não vai mais criar palavras ou conceitos por mera abstração; ao cria-los, fará como um dispositivo do pensamento. O que quer aquele que quer criar tal conceito? Que forças serão reativadas na criação da palavra? Como é o pensamento que tal conceito produz? Além do alto e baixo, podemos acrescentar que em sua arte, o genealogista considera a capacidade de afetação, que afetos tal conceito produz? O pensamento nele é da leveza ou trás pesadume?

A filosofia do genealogista se orienta no pensamento, como coordenadas, alto, baixo, leve, pesado, intenso.

Voltamos às forças. Nesse texto, não convém entrar nos pormenores, porque me remeteria a outro trabalho. Conveniente, por ora, dizer que as forças se misturam entre si, atravessam-se simultaneamente. Nesse atravessamento mútuo, há dois tipos de devires. Em um tipo de devir, a força reativa contamina a força ativa, e a arrasta ao seu terreno, até o fim do devir reativo, na vontade do nada (niilismo). Neste caso, a força inicialmente ativa tornou-se reativa. Ao se separar de sua potência, volta-se contra si mesma. O genealogista deve voltar sua interpretação à circunstância, pois conforme disse acima, a própria força inicialmente ativa, tornou-se reativa e se autodestrói... Porém aí, neste ponto, que é seu limite, dá-se início a uma transmudação. Ao seguirem a vontade de nada até o fim, as forçam tornam-se ativas novamente, porém com uma nuance diferente das forças ativas primeiras.

Uma síntese: O genealogista precisa estar desatrelado do pensamento enquanto representação, totalmente solto com relação a uma imagem moral, precisa desenvolver uma escrita intensiva e, sobretudo batalhar por sentidos  para o que avalia e não por significados.

A arte do genealogista, no tocante as forças, lembra-me Dostoiévski. Pelos tipos de pessoas que encontrou na prisão. Ao escrever seu romance, em diversas passagens na narrativa, ele percebe no criminoso um devém de força hostil que o contamina. Porém, ao penetrar rigorosamente nessas forças, e isso o leva a percorrer novas formas de ver o mundo, com afetos muito diferentes. Passa a perceber sentimentos novos, ao conseguir enxergar as coisas do ponto de vista do prisioneiro. Um espírito forte, diria Nietzche, é capaz de perceber nele, o que resta de reativo e assim, decompõe sua reatividade. É o forte querendo a destruição do que é fraco nele mesmo. Na visão do eterno retorno (não discutido neste texto) trata-se de uma destruição ativa e ao mesmo tempo seletiva, de forma que o que é reativo não volta mais. O homem continua o mesmo, mas não mais o mesmo, sua força ‘fraca’ não volta mais.



 

Referências bibliográficas:

 

DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1976.

DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Recordações da casa dos mortos. Tradução de Nicolau S. Peticov. São Paulo: Ed. Nova Alexandria, 2015.                                                                                   

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. In: ___. Obras incompletas. Seleção de textos Gerard Lebrun. Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril, 1983. (Coleção Os Pensadores).

___________Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 

PELBART, P. O Tempo Não-Reconcliliado. Imagens do Tempo em Deleuze. São Paulo, Perspectiva, 2004.

 


[1]   Nietzche, Frederich, Genealogia da Moral, editora: Companhia de Bolso. 6ª reimpressão, pg 27, tradução: Paulo César de Souza.

[2] Nietzche, Fredeirch. Genealogia da Moral, Editora: Companhia de Bolso. 6ª reimpressão, pág. 28, tradução: Paulo César de Souza.

[3] Dostoiévski, Fiodor. Recordações da casa dos mortos, Tradução Nicolau S. Peticov. São Paulo. Editora: Nova Alexandria, 2015, pág. 319.

[4] Pelbart, Peter, Pál. O tempo não reconciliado. São Paulo. Coleção estudos. Editora Perspectiva, 2010, pág. 107.

[5] Segundo a interpretação de Gilles Deleuze, vontade de potência, é o elemento diferencial, genealógico (gênese) que determina a relação da força com a força e que produz a qualidade da força. É o poder de ser afetado por essas forças e daí extrair seu diferencial; e o que ela quer é sua própria qualidade. Deleuze ao entrar em contato com o pensamento de Nietzche, ainda diz que diante de determinado fato ou fenômeno, é da vontade de potência que se derivam a significação de seu sentido e valor. É assim que ela além de criadora é doadora de poder, ela não deseja o poder, ela se constitui numa “virtude que dá”. Gilles Deleuze – Nietzche e a Filosofia. Trad. Ruth J. Dias e Edmundo F. Dias. Rio de Janeiro. Ed. Rio, 1976, págs. 30 e 41.

[6] Foucault usa o conceito de “ Fora” como exterioridade.

[7] Anotações de aula (Curso de Filosofia, PUC-SP/2014).

 

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